O que é ser sueco?

De quando em vez me pego pensando sobre isso. E acho que definir qualquer coisa que seja é um assunto delicado, principalmente quando se trata de pessoas. Mas a questão permanece. Ao contrário do que acontece no Brasil, a criança nascida na Suécia não ganha nacionalidade automaticamente. Isto porque, no Brasil, a nacionalidade é vinculada ao nascimento do indivíduo no territorio pátrio, chamada de jus soli, enquanto que aqui é o jus sanguinis que é valido. Em outras palavras, a criança precisa ter um vínculo sanguínio com a pátria, ou seja, o filho tem a nacionalidade da mãe e/ou pai ou de seu antepassado próximo. O jus soli e o jus sanguinis são dois tipos jurídicos de classificação da chamada nacionalidade primária, ou original. É possível também que uma pessoa de uma outra nacionalidade torne-se sueco, o que é chamada de nacionalidade adquirida.

Divergências existem dentro da Comunidade Européia quanto a este assunto, no entanto alguns autores explicam que isto se deve à concepção de nação adotada por cada Estado: àqueles que são regidos pelo jus soli se utilizam de uma questão territorial, enquanto que os que adotam o jus sanguinis se utilizam da questão cultural. Nem vou entrar no mérito da questão de cidadania e nacionalidade para não confundir nem complicar o assunto.

Mas porque toquei neste ponto? Desde antes da minha mudança, ou melhor, desde que conheci meu viking esta questão me persegue. Na verdade acho que isto iniciou até mesmo antes, quando comecei a estudar sobre os problemas de integração da Franca. “De uns tempos para cá” nunca se falou tanto na necessidade de se afirmar a nacionalidade. Sei, sinto e entendo como um expatriado torna-se tão “nacionalista” e sentimental quando está longe do país e da sua cultura; quanto cada símbolo, cor, gestos faz o coracao bater mais forte e defender a pátria amada….

Mas bom, voltando ao que me incomoda. Não sei se é a educação que recebemos no Brasil, se o problema é mundial ou qualquer outro motivo que não sei explicar, que separamos os continentes por raça e/ou cor. Explico: na escola aprendemos que o Brasil foi formado pela juncao das três raças: o Branco (europeu), o Negro (africano) e o Índio, as duas últimas sempre apresentadas como sub-culturas. Isto, por mais que seja valorizado (para mim, um pensamento bastante reducionista), repercutido e digerido pelo (sub) consciente, é o que muitos brasileiros pensam sobre o (resto do) mundo. Pois bem, é com esta linha de raciocínio que esses muitos imaginam que na Europa só existem brancos, na África só é possível ver negros e nem cito os índios, para não piorar a situacao.

Acredito que este problema não se resume apenas ao Brasil e a brasileiros. Enquanto morava na França, a mãe de uma guria se espantou quando eu disse ser brasileira. Isto porque uma vizinha havia adotado um menino brasileiro que era negro. Ela me perguntou “na lata” como era possível eu ser brasileira (por ser branca). Na cabeça dela (explicação da própria), só haviam negros no Brasil já que a única referência que ela tinha do país era o menino da vizinha. Voltei para casa com isso na cabeça e penso que aquilo não foi ignorância (a falta de sber, desconhecimento), mas sim um conhecimento limitado. Prefiro pensar desta forma.

Bom… Meu viking nasceu na Suécia, de mãe sueca e pai maurício (Ilha Maurício), cuja nacionalidade sueca foi adquirida vários anos antes, portanto sueco (entra no caso do jus sanguinis, já que os pais são suecos). A Ilha Maurício, no Oceano Índico, foi descoberta pelos portugueses, colonizada pelos holandeses mas ficou sob o domínio francês durante o século 18 até ser tomada pelos britânicos em 1814. Lá fala-se o francês, inglês e o crioulo. A particularidade no caso do meu viking é que seus avós paternos são chineses, por isso seus traços orientais. Não vejo problema algum nisso, nem em explicar essa história. O que me incomoda e me faz pensar na questão-título é que em vários locais que passamos, visitamos ou chegamos, a primeira reação é falar sueco comigo e inglês com ele. Se nao é isso, vem as perguntas clássicas, “tu é sueco?”, “mas ele nao é sueco, não é?”, “tu fala sueco?”. A mesma coisa acontece com o marido de R, Lituana, que neste caso é curdo, com uma pele mais escura, e ela loira. Esse assunto já surgiu na roda de conversas com as meninas da escola e R. tembém notou e sentiu esse tipo de tratamento tanto por parte de nativos quanto de outros imigrantes. Aqui em casa já conversamos sobre o assunto e ele diz isso que não o incomoda. Na verdade acredito que para ele seja normal, pois deve ter ouvido este tipo de pergunta desde a infância.

Penso, penso… Mas meu pensamento é vai bem mais longe. Sempre falei para minhas amigas chinesas e russas que elas podiam se passar por brasileiras (se nao abrissem a boca, claro) pois somos um país tão misturado (não somente pela “formacao do povo brasileiro”) que qualquer um pode ser considerado brazuca. Mas porque aqui seria diferente, já que a Suécia é também e desde sempre foi um povo bastante misturado (aqui não existem apenas loiros de olhos azuis com dois metros de altura; isto também é valido para as mulheres)?. Porque não falar o idioma sueco com todos (sem excessão) antes de, ao julgar pela aparencia, trocar o idioma apenas porque a pessoa não corresponde às características “típicas” do imaginario mundial. Contrariamente, esse é um dos motivos pelos quais os franceses são tão criticados e chamados de “bairristas”, por só falar primeiramente francês com qualquer pessoa que peça informação (não defendo completamente isto, já que eles “preferem”, de fato, não falar inglês). Cito o caso francês como o extremo, mas também como um exemplo. Tento encontrar uma explicação para esse tipo de atitude, mas não encontro e a falta de resposta me angustia. Não sei se isto é porque ainda não consigo entender como a Suécia (e as pessoas que aqui habitam, sejam nativos ou imigrantes) funciona realmente, se eles querem fazer com que o outro se sinta a vontade (ao falar diretamente o ingles – idioma universal (??)), se é apenas choque cultural ou é puro desdém. Essa é uma questão que me incomoda profundamente, que me fez perder o sono, e me fez ver o céu ficar claro enquanto escrevo o post.

Mas a pergunta retorna, o que é ser sueco entao? É nascer aqui (faço aqui um mea culpa já que por muitas vezes esqueço dos países que possuem leis diferentes da nossa)? É ter as características físicas que todos imaginam que os suecos tem?, É aquele que pode adquirir nacionalidade em determinado momento da vida? É, segundo o jus sanguinis, vindo da filiação? Ou é, dependendo da concepção adotada pelo país, uma questão cultural?

Além disso, existem outras questões referente ao caso que não consigo me lembrar agora… Acho bom tentar dormir um pouco, as idéias já estão bastante embaralhadas… Tu pensa demais!, minha mãe vai dizer, e quem pensa não casa!!! (assunto que também merece um post).

  • A palavra do dia é svensk, sueco

13 thoughts on “O que é ser sueco?

  1. Ju,
    lindo seu texto!!!!
    acho que quando a gente muda a referencia começa a cruzar com esses dilemas na cabeça.
    Também tenho muitas dessas dúvidas que você tem e também não entendo os noruegueses.
    Mas (por enquanto) isso não me incomoda muito.

    beijos e boa sorte!
    Mercia

  2. paolasartoretto says:

    Otimo texto Ju! Olha, vou te dizer que depois de ver gente tentando falar árabe, turco e albanes comigo, entre outras línguas, o que eu sinto é tem gente que por instinto acha que pessoas de certos países tem certas características físicas.
    Depois de muitas viagens, conhecer gente, ver o mundo, estudar, ler; descobre-se que por nao dá mais para atribuir características físicas a nacionalidade.

  3. marcia says:

    Ai ai, quando eu crescer quero ser igual a você e me preocupar com coisas sérias :p

    sei lá Ju pq isso acontece… até pq a gente sabe, por experiência própria, que muitos suecos, mesmo sabendo que nós somos brasileiras, continuam a falar sueco sem se importar se estamos entendendo ou não.. Daí fica uma coisa meio contraditória né?

    Eu acho que o que faz a nacionalidade é uma mistura de fatores. Com certeza não é o local onde vc nasceu e nem de onde os seus pais são… Acho que é mais uma assimilacão da cultura, um entendimento dos porques que regem os países e uma boa dose de amor ao local. No que se refere aos suecos, acho que eles se prendem bastante ao idioma e a aparência física sim. A maioria é loira, de olhos claros e um biotipo bem especifico e eles se guiam por isso. Comigo já aconteceu muitas vezes de não notarem que não sou sueca mas tb não tenho tracos especificos de nenhuma raca né?

    Bom pra não fazer um post do meu comentario, vou parando por aqui.. a gente depois discute pessoalmente 😉
    Beijosssssss

  4. Aninha says:

    Pois é, Ju! Até na Espanha, que é um país também muito mesclado com árabes e etc, e muito acostumado com imigrantes do mundo todo, passei um ano inteiro respondendo ao povo que me perguntava: “Mas como é que vc é brasileira sendo tao branquinha?”. O povo acha que toda brasileira é mulata, né? Caramba!!! E olha que nem tenho olhos claros nem sou loira!

  5. Ana says:

    Engraçado isso mesmo Jú. Acho péssimo quando me perguntam “como não sabe sambar?!?”; parece que por eu ser brasileira e mulher tenho a obrigação de saber, então, acho que não sou brasileira? Eu não tenho nenhuma resposta para as perguntas do seu post, mas acho que os critérios jus sanguinis e jus soli não chegam nem perto da questão cultural… que é muito mais complexa. Ah, e nem vamos falar dos brasileirinhos apátridas espalhados pelo mundo, né? Bjo.

  6. Pois é Mercia, isto é uma coisa que começa a me incomodar, mas não (somente) da parte dos suecos para comigo mas dos próprios imigrantes e até mesmo de nativos para com ele. Ainda bem que não o incomoda :)
    Paola, amore, já passei por situações desagradáveis tanto aqui como na França com gente de várias dessas nacionalidades, inclusive nossos conterraâeos. Uma lástima.
    Marcinha querida, acho que você tem uma chavinha mágica que desliga e te poupa dessas coisas. 😉
    Pois é Aninha, até de Grega e de Turca já fui considerada, nada contra, mas concordo com o que Paola disse que nao dá mais pra distinguir a nacionalidades a partir de características físicas.
    É Ana, o samba e o futebol sempre impregnados como nossas referências. Já os Brasileirinhos Apátridas é uma questão simples e ao mesmo tempo complicada. Mas pelo que li, junho ou julho a PEC-Brasileirinhos Apatridas será votada e essa situação logo estará resolvida.

  7. Carol says:

    Oi Ju!

    Tudo bem?
    Tô meio sumida por causa do trabalho, mas sempre dou uma passadinha rapida por aqui.

    Mudando um pouquinho do assunto do post, mas ainda sobre os suecos, quero te recomendar um livro, acho que você vai gostar! Chama-se “Modern-day Vikings: A Practical Guide to Interacting with the Swedes”. Os autores são Christina Johansson Robinowitz e Lisa Werner Carr. Eu comprei na amazon.com ano passado, e ADOREI! Eu estava procurando algo sobre os suecos, pra tentar “entender” um pouco melhor o meu viking e as nossas diferenças (e haja diferença!). Quando o livro chegou, o devorei em 3 dias, e tudo fez sentido hihihihi Parecia que eu estava lendo sobre o meu namorado especificamente! Apesar de eu odiar estereotipos (tipo Brasil = samba = futebol = biquini), confesso que essas autoras realmente abordaram o comportamento sueco de uma forma realista, e o meu namorado, depois de ler o livro, tb concordou com muita coisa.

    Se você não se incomodar de ler em inglês, tente compra-lo! Acho que depois voce teria muita inspiraçao pra mais um otimo post!!

    Um beijo pra você!
    Carol

  8. Suely says:

    Oi, nega,
    ando meio sumida, mas como te falei, a nossa internet não estava legal.
    Mas, li todos os seus posts desta e da semana passada e
    cada vez mais que os leios, fico bestificada como estás
    escrevendo bem e bem difícil. Não sei se estou me sentido
    um pouco burricha, ou se estou cansada demais para entender tanta coisa.
    Mas, vc. esta de parabém para maravilhas que escreves.
    Quem diria.
    Acho maravilhoso poder ler tantas coisas que escreves e
    com conhecimento e base em tudo.
    Realmente estás de parabens, fico orgulhosa mesmo.
    Beijos mil e continues assim.
    beijos mil mainha

  9. Celso Escobar says:

    Interessante, tive um vizinho sueco por vários anos aqui no Rio de Janeiro e nos tornamos amigos. Na época ele tinha 26 anos e lhe perguntei porque havia deixado a Suécia, já que era um país tão desenvolvido, e resolvido vir morar no Brasil. A resposta foi lacônica: só faz sol durante um mes, o governo tira quase tudo que se ganha e as mulheres fazem sexo sem emoção!

  10. Irapuan says:

    Oi, Ju!

    Pretendo viajar p/ Europa, com tantos relatos que li, tenho preconceito, não c/ as pessoas e sim comigo, de Brasileiros que foram criticados. Mas são teses como as suas que nos fortificam e nos fazem acreditar não na Ginga da Bola e do Samba e sim em saber que o nosso Sub-desemvolvido País Já desemvolvel muitos paises. E ainda continua a desemvolvendo. Sucesso!

  11. Interessantissimo seu texto. Parabéns! Muito bem esclaredido. Tenho uma curiosidade em conhecer o país, mas se você pudesse me ajudar ou até mesmo confirmar uma questão que me martela na mente, eu seria muito grato. Acho fascinante a cultura nórdica, suas musicas, sua mitologia etc mas na questão religiosa: é a suecia ainda um país pagão? Qual a religião ou as religiões predominantes no país? Eles não acreditam mesmo em Deus? Obrigado e tudo de melhor!

  12. Guilherme says:

    MUITO INTERESSANTE O COMENTARIO PARABÉNS, PRETENDO ESTUDAR NA SUÉCIA . ESTOU QUERENDO AJUDA ARESPEITO DO IDIOMA E DAS MULHERES. PODEM ME AJUDAR. OBRIGADO

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