Um dia para chamar de seu

Pois é, posso dizer com segurança que tem dias que o mundo conspira a teu favor, ou a favor de todos ao teu redor. Ontem foi um desses dias. Minha sogra foi a primeira do dia a ser contemplada. Na verdade o dia foi inteiramente dela (por isso o título do post), nós colhemos apenas alguns frutos. Ela, que completará 65 anos em agosto, finalizou um trabalho de quase dez anos, ontem. Mamma, como chamo carinhosamente Ulla, apresentou sua tese de doutorado pelo Karolinska Institutet (KI) às 09h e a apresentação durou quase quatro horas. O KI é uma das maiores universidades de medicina da Europa e o maior centro de formação de médicos (30%) e pesquisa de medicina (40%) do país. Fundado em 1810 pelo rei Carlos XIII, o KI recebeu o status de universidade em 1861 e é o responsável pela escolha dos prêmios Nobel em Fisiologia e Medicina desde 1901, ano de criação do prêmio.

Voltando ao projeto. Em grandes linhas, a tese trata do diagnóstico do tumor na glândula supra renal e como Ulla (e os companheiros de pesquisa) chegaram à tais descobertas. Quem quiser saber mais sobre a pesquisa, pode clicar no link no final do post para ler o abstract.

Bom, a exposição foi toda em sueco, a tese é em ingles e daí voces podem tirar meu nível de compreensão no assunto :roll: . Há algumas semanas pedi para que ela me explicasse de uma forma mais fácil do que se tratava, mas os termos médicos me impediram de ter um entendimento completo do assunto. Após a apresentação, momento do coffe-breake para a espera do resultado. No caso do doutorado, só existem duas alternativas: ou o projeto recebe G ou IG, isto é, Godkänt (Aprovado) ou Icke godkänt (Não aprovado). Mas parece que todos já sabiam que a tese seria aprovada e ela receberia o título de doutor. E foi o que aconteceu, alguns minutos de espera foram suficientes para que soubéssemos (ou apenas eu descobrir) que foi tudo aprovado. O orientador da pesquisa falou e a compreensão chegou um pouco atrasada aos meus ouvidos hoho. Todos os presentes, médicos, amigos e familiares parabenizavam-a pela excelente apresentação e pelo resultado, tudo muito comedido e organizado.

Um parênteses: Depois do break acompanhamos minha cunhada até Ikea. Bom, isso é uma coisa corriqueira, sem muita importância não fosse a primeira vez que ela iria dirigir depois de ter recebido a carteira de motorista 😀 . Ela chegou nervosa à apresentação da mãe já perguntando quem poderia acompanhá-la nessa dificil missão. Levantei logo meu dedinho e o do meu viking. Não pelo fato de ir à Ikea, loja com um conceito muito legal onde é possível comprar móveis e artigos para casa de boa qualidade e com um preço bastante acessível (Ikea merece um post inteiro, depois explico mais), mas de poder fazer companhia a cunhadinha que sempre foi muito fofa comigo.  A aventura, como os outros irmãos nomearam nosso passeio, foi super tranquila. Ela estava um pouco nervosa, mas meu viking estava lá para dar força à irma, o que foi mais importante. Fiquei feliz por ela. :) Fecha parênteses.

Chegamos em casa por volta das 17h30, mortos de cansados. Não deu tempo de muita coisa. Nos preparamos e saímos novamente, dessa vez para a comemoração da conquista do doutorado. Esse tipo de festa por aqui é bastante comum e sempre regada a muita comida. A casa onde ocorreu a festa foi construída por volta de 1800 e serviu primeiramente como estábulo do presbitério (já que ela encontra-se ao lado da igreja de Solna) para que em 1930 fosse transformada em fábrica de tecidos. Hoje, administrada pela igreja, o local pode ser alugado para festas, cafés, batismos, velórios, etc. Então, continuando. Quando chegamos já havia bastante gente; a festa foi para 40 pessoas. Todos nos cumprimentaram e sempre comentando que haviam visto todos os filhos de Ulla nascerem. Detalhe: ela trabalha há mais 40 anos no KI.

O menu do jantar:

Carneiro ao molho de macã (estava uma delícia, apesar de achar q poderiam ter sido melhor cozido), salmão, tomates ao forno, alcachofra com queijo de cabra (o melhor de todos os pratos), patê com repolho, arroz misturado com arroz selvagem e pães.

Durante o jantar, discursos… E eles vieram de todos os lados. Não deu para entender tudo, mas fiquei bastente emocionada. Todos sublinhavam o fato dela ter levado esta luta até o final, da força em continuar batalhando após cada gravidez (ela tem cinco filhos) e ter conseguido ao longo deste tempo formar uma família tão bonita. Ninguém tocou no assunto da sua doença (ela descobriu que tem um tipo de cancer incuravel em 2003, logo após a conclusão da primeira parte do doutorado) e como ela tem batalhado, mas acho que todo mundo pensou nisso enquanto proncuncavam as palavras de afeto. Todos (ou quase) quiseram deixar registrado o carinho que têm por ela. O mais doce de todos e o que pude endender mais claramente veio da parte do meu cunhado (o segundo). Ele falou de inspiração, força e gratidão, Quase fui às lágrimas. Estou conseguindo me controlar bastante!!

Foram muitas trocas de presentes e palavras bonitas. A frieza tão propagada do povo escandinavo foi pro beleléu. Claro que eles não são festeiros como os brasileiros mas, apesar do comedimento, senti um clima bastante acolhedor e caloroso. E isto é muito bom. Acho que o clima atingiu até o pequeno da família (o sobrinho). Normalmente o petit é bastante arredio, não fala com ninguém e diz frases bastante duras aos tios, apesar da idade. Ontem, o mosquitinho da gentileza picou o menino. Tive direito até a andar de mãos dadas e receber um beijo de despedida (coisa que é praticamente impossível acontecer normalmente). Meu viking ficou super contente quando ele sentou em seu colo e brincou um pouco. Espero que o mosquito pique-o mais vezes hohohoho.

No final da festa (chegamos em casa quase 02h de hoje) alguns vieram falar comigo e pude ver e sentir como meu sueco está evoluindo. Pude conversar com várias pessoas sobre vários assuntos e só recebi elogios. Estou orgulhosa de mim. Acho que foi o clique que estava faltando para descambar para o falatório. Tenho até pena das orelhas suecas!! 😉

Tese de Doutorado de Ulla Enberg pelo Karolinska Institutet:

Functional and diagnostic aspects on adrenocortical adenoma

  • A palavra em sueco do dia Doktor, doutor

5 thoughts on “Um dia para chamar de seu

  1. LÊDA JAMBO says:

    Nega, fiquei muito orgulhosa de saber q sua sogra foi aprovada, realmente ela é uma lição de vida p/tds nós, fale q estamos muito felizes e parabenize, pois tem tanta gente q qd escobre q esta c alguma doença se entrega, mais vc sabe q ñ é p/td mundo, receber uma notícia deste porte, portanto ela tb é uma lição de vida p/mim, nós ñ podemos parar, e deve ter sido emocionante estar assintindo esta tese. Parabenize o lindooooooooooo, tb, p/ter uma mãe c tanta fibra. Nêga, te amo, e continue sendo essa pessoa maravilhosa q és. Tia Lêdinha.

  2. marcia says:

    Ai que lindoooooooooooooooooooooooooo
    Parabéns pra sua sogrinha Ju e que o universo conspire para que vc tenha um dia pra chamar de seu breve breve 😀
    Eu sinto a maior falta de família aqui, o meu digníssimo tem só um irmão e eles não têm muito contato não. A mãe é casada de novo e mora longe e o pai mora sozinho e não fala uma letrinha de inglês! Eu gosto muito da minha sogrinha, ela sempre foi fofa comigo mas a gente se vê pouquissimo!!!

    Quanto a ir as lágrimas, sempre fui chorona por natureza. Agora então, estou insuportável, tenho até pena de quem convive comigo. O pior que não consigo controlar 😛

    Arrasando no sueco hein mulher??? Aiiiiiiiiiiii me ensina?? Eu continuo de boca travadaaaaaaaaaa. Não falo nem pio. Não nasci pra essa língua não aiuhaiuahiuhiahia

    Beijos linda

  3. simone says:

    Oi Ju!

    Que otimo ler relatos de uma Brasileira se adaptando tão bem a um pais com tantas diferenças culturais. Parabens a sua sogra pela conquista e a voce pelo seu sueco.

    Si

  4. SUELY says:

    Oi nega,
    Realmente estou bastante orgulhosa e feliz com a aprovação da tese da sua sogra, como tb. com você, pois estas conseguindo se entrosar com o pessoal na lingua deles.
    Sei que irás tirar de letra esse idoma e que em um tempo bem menor que imaginas, conseguiras falar e escrever como seu idioma nativo.
    Mas, diga a sua sogrinha, que aqui torcemos por ela e que tb
    estamos rezando para que sua doença não a esmoreça, e mais lhe dê mais ainda força para continuar a lutar, pois como dizem: a fé remove montanhas. Quem sabe?
    beijos mil em todos e um em seu coração.
    mainha

  5. Ju, que lindo!!! terminar assim um doutorado nessa idade e com todas essas dificuldades!!
    é o que se chama seguir seus sonhos!!! fiquei super emocionada!

    dá os parabéns para ela por mim! ela merece!!!

    ahh… e parabéns pra vc tbm pelo sueco!! acho que temos é que começar a falar mesmo!

    beijos

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