Choque cultural, quem imigra passa por isso!

Sábado li o capítulo do livro que preciso para o simulado da prova oral de terça-feira. Algo como “O que acontece conosco quando as coisas não batem/entram em conflito” O interessante é que uma das situações descritas traduz se não quase, exatamente o que estou sentindo neste momento. Explico. Existem vários processos pelo qual uma pessoa que imigra (não acontece com todos, mas é possível afirmar que é uma quantidade significativa) passa até o que podemos chamar de uma completa adaptação. Esses sentimentos não são os mesmos se comparamos com aqueles que passam pequenas temporadas em países estrangeiros ou fazem viagens de férias.

O primeiro deles é förvirring, isto é a confusão, desordem, perturbação. A partir do momento em que se entra em contato com outra cultura começam a surgir sinais de que aquilo que você estava acostumado a fazer, dizer ou agir não será interpretado da forma esperada, ou seja, valores, símbolos, gestos e comportamentos não terão o mesmo significado numa terra estrangeira que teria no teu país. Tudo isso é passível de má interpretação. Tudo o que parecia simples passa a ter um outro peso, tudo terá de ser medido para evitar situações desconcertantes, você passa a refletir sobre todos os teus atos.

Depois vem o que o Herlitz chama de kulturchock, ou choque cultural. Na verdade, ele explica que o uso desse termo é infeliz por gerar máscabeloempe.jpg interpretações. O termo adequado seria kulturtrötthet, isto é, cansaço, fadiga cultural. Ele pontua que a primeira fase no país é geralmente acompanhada de um certo encantamento, onde tudo é perfeito, como por exemplo exclamações do tipo “Como eles são bonitos!”. Em seguida, tudo passa a incomodar, como “É certo que eles são bonitos, mas vocês perceberam como são sujos?!”.

O cansaço cultural pode causar uma série de comportamentos diferentes, como angústia e até depressão. A agressividade é uma maneira de tratar esse tipo de decepção. A reação mais comum é rejeitar tudo ao redor e exaltar o país de origem. Outra reação é o isolamento. Você não quer encarar o mundo lá fora porque não parece seguro do ponto de vista psicológico. Um ponto interessante é a constatação de que as mulheres são afetadas com mais força por esses sentimentos. Dentre vários exemplos, o autor pontua a reflexão sobre o papel da mulher enquanto profissional e a relação da mulher com a carreira escolhida.

Eu consigo me ver em ambos os pontos, com mais ou menos frequência. No meu caso não é a cultura, gestos ou atitudes que me cansam mas minha relação com o idioma me deixa nessas situações. Tipo, não sou uma pessoa agressiva, muito pelo contrario, mas me vejo tendo atitudes que jamais teria em outras ocasiões. Sei que muito disso é inconsciente e só me dou conta depois que agi e falei. Sei também que é questão de tempo, que as coisas se encaixam e tudo volta ao normal. O problema é o gerenciamento desse processo.

eletrico.gifEstou em uma fase de amor e ódio com a língua. As vezes adoro, acho lindo, me empolgo, falo pacas, mas outras não quero entender nem um “ai”, nada entra na minha cabeça, por mais que estude, e a incontrolável sensação de impotência que me leva muitas vezes ao choro e a angústia. É um mal humor e uma falta de paciência que se prolonga por dias. Muitas das vezes esses sentimentos aparecem após alguns comentários, quando vou pedir alguma informação ou mesmo após um “branco” no meio de uma conversa, argumentação. O moço aqui de casa fica sem entender e muitas vezes não sabe o que fazer quando me vê assim. Para minha sorte ele é bem paciente. :)

O autor explica ainda a existência da Janela de Johari (em inglês), um modelo utilizado na psicologia para auxiliar na compreensão do auto conhecimento, da comunicação interpessoal e das relações com o grupo. Adoro psicologia! A partir deste modelo é possível entender o porque da necessidade de se relacionar com conterrâneos em um país estrangeiro.

O modelo é composto de quatro janelas:

I – A primeira delas é aquela em que eu quero que outras pessoas vejam e saibam sobre mim. II – Aquilo que desconheço sobre mim mas que os outros percebem. Essa área é também conhecida como a “área do mau hálito” por se referir a fenomênos e comportamentos que emitimos sem se dar conta do que está sendo feito. III -Esta área é aquela em que escondemos sentimentos, atos que não queremos revelar. É a área em que eu não quero que os outros vejam ou saibam. IV– Aqui é o que o autor chama de “Meu potencial”. Aquilo que não temos conhecimento que possuímos e que cientistas costumam chamar de área do cérebro inutilizada em cada indivíduo.

Se tomarmos em consideração os conceitos iniciais vemos que, por exemplo, ao restringir inconscientemente nossos atos, gestos e palavras para que desentendimentos não aconteçam nós estamos transferindo ações do I para o III, fazendo com que a área do eu secreto aumente e consequentemente a do eu aberto diminua. A confusão só aumenta, Herlitz explica: Em casa, na terra natal, sou eu mesmo, consciente, que escolho o que quero esconder.

Uma pessoa que se encontra em tal situação (com a balança desequilibrada) não tem como se sentir bem. Sem poder se expressar, agir naturalmente a pessoa se sente insatisfeita. E é aí que entra o papel dos conterrâneos. Segundo o Herlitz, são apenas eles que são capazes de decifrar meu comportamento, meus medos, minha língua (acho que isso depende de vários fatores). Tenho sorte de ter encontrado as meninas e ter formado uma família lulu que se encontra semanalmente nem que seja apenas para dar um abraço e tomar um café. Digerir esses sentimentos fica mais fácil e a cada encontro volto para casa de ares renovados.

O tempo é o melhor remédio, cura tudo, como costuma dizer minha mãe. Sabedoria popular confirmada por especialistas que afirmam que o aprendizado da língua, a compreensão dos valores, leis, moral, regras do novo país assim como a interpretação das reações ao seu redor faz com o que a balança volte a se equilibrar. Aliado a isso, ao aprender a interpretar sinais e me fazer entender da forma correta a confusão desaparece e o feedback esperado acontece fazendo com que a adaptação se complete.

  • O verbo em sueco do dia é anpassa sig [ãnpássa sei] , se adaptar

3 thoughts on “Choque cultural, quem imigra passa por isso!

  1. Ola Gabriela. Eu nao tenho conhecimento de curso de suecos para brasileiros. No entanto sei que existem alguns cursos privados oferecidos por uma faculdade e outro por uma escola e ja ouvi falar que turistas podem fazê-lo. Não sei se isso procede (ja que tudo aqui é baseado em seu número pessoal – só para quem mora na Suécia), mas nao custa nada perguntar 😉 .

    Dê uma olhada neste link (em ingles) da Folkuniversitet e se possivel entre em contato com eles para maiores informacoes.

    Neste aqui (Medborgarskolan) vc precisa escolher a cidade e procurar por SVENSKA (sueco) o site é em sueco.

    boa sorte!

  2. Gabriela says:

    Bom dia,

    Meu nome é Gabriela e estou indo para a Suécia em maio. Meu marido estará indo para trabalhar durante 5 meses e eu irei em maio para passar 2 meses de férias e matar a saudade. Gostaria de saber se na suécia há cursos de sueco para brasileiros?
    Há comunidades de brasileiros ?
    Por favor me ajude, estou desesperada.

    Atenciosamente,

    Gabriela

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