A andorinha vista do norte

Imaginem situações nas quais você, sempre atenta, procura ajudar as pessoas ao seu redor. Ajudar um velhinho a carregar uma mala ao subir algumas escadas do metrô, dar lugar a uma pessoa mais velha ou a uma grávida, ajudar alguém da família a organizar uma refeição do dia ou mesmo a lavar os pratos (essa parte eu até dispenso, mas fazer a política da boa vizinhança não mata ninguém! 😉 hoho), fazer companhia a alguém quando este, visivelmente, está precisando, entre outras.

No Brasil (falo no meu Brasil, o Brasil de Juliana, a minha cidade, minha realidade – sem generalizações!), somos acostumados a dar uma mãozinha àqueles que precisam, dar um apoio moral, e muitas vezes físico, quando um amigo está doente, a respeitar os mais velhos, a ser gentil e educado. Eu sou uma pessoa assim. Ajudo de graça, sem pensar no retorno, sem ter uma segunda intenção. Ajudo porque fui ensinada a ajudar à todos indiscriminadamente. Muitas vezes dou muito mais de mim ao outro do que a mim mesma (sei que não deveria ser assim e estou tentando consertar isso!). O problema é que venho recebendo tanto não a quem ofereço ajuda que às vezes passa na minha cabeça que o problema é comigo. Na verdade, fico triste e começo a evitar tomar esta iniciativa (e a me podar!).

Enquanto isso, na terra dos vikings a coisa funciona de outra forma.

Não digo que os nativos não ajudam ou que são 100% egoístas. Não! O fato é que culturalmente eles são individualistas e independentes. Existem exceções, claro. Mas o que me interessa aqui é o geral. Pois é com o geral que me encontro nas ruas, no metro, na universidade, na escola, no supermercado, etc, e é com eles que tenho que aprender a lidar.

Cenas típicas do cotidiano mostram como os dois adjetivos “ind” estão ligados. Ouse no metro dar lugar a um velhinho que você pode levar na cara duas respostas: “Você acha que não consigo ficar em pé?” ou “Não preciso, estou bem aqui“, mesmo se ele estiver cambaleando e/ou quase caindo cheio de pacotes. Um outro exemplo, este relatado em vários lívros que descrevem o comportamento sueco, mostra que em um ônibus/metrô quase vazio o sueco vai preferir sentar numa cadeira vazia do que ocupar o lugar ao lado de um passageiro.

Bom isto é bem compreensível, até eu faria isso! Mas as vezes este comportamento é extremo. Nesses meios de transporte não é raro ver uma cadeira vazia onde bem poderiam se sentar duas pessoas. É comum ver pessoas em pé, em vez de sentadas ao lado de alguém, para não dividir o acento ou mesmo mudar de lugar quando a cadeira da frente fica completamente vazia.

E os 60-80 centímetros de distância?? Esta distância básica é um aspecto da cultura sueca aprendida desde a infância de forma silenciosa, inconsciente. Por isso, não ultrapasse esta linha que você começa a incomodar um nativo. A linha imaginária nem me incomoda. Até me divirto em pensar como eles devem se sentir dentro do metrô cheio de gente. hehehe 😉

Essa digressão básica pelo comportamento sueco me faz lembrar de um livro do qual li alguns capítulos recentemente (não me recordo o nome) onde diz que os nativos não aceitam ajuda para não ficar devendo favores a ninguém. Quer comportamento mais individualista do que esse? A cara pálida aqui não oferece ajuda pensando em receber nada em troca!! Além disso, o sentimento de independência entre as pessoas aqui é tão forte que chega a impedir que uma ajuda seja aceita. Consentir em receber ajuda parece ser sinal de fraqueza, o que para eles é inadimissível.

No livro Kulturgrammatik, do qual falei em outra ocasião, cita várias diferenças entre a cultura-Eu e a cultura-nós que é bem interessante. Apesar de a cultura americana, no meu entendimento, ser o exemplo-mor, ou seja, estar no ápice da cultura-Eu, na qual o rendimento é o mais importante, o individual frente ao coletivo, concorrência, etc, a Suécia não está muito distante de tais qualificações. Na cultura-nós, por exemplo, você faz parte de um todo etc, etc. Existem pontos positivos e negativos em ambas, claro.

No entanto, o que eu queria ressaltar aqui é que expressões como Själv är bäste dräng (Você próprio é o melhor agricultor), Ensam är stark (Sozinho é forte – ou bom e valoroso admirar) ou Bra karl reder sig själv (Um homem de verdade vale-se por si mesmo) são comumente usadas para elucidar a tendência sueca da cultura-Eu. Isso me incomoda a tal ponto que começo a questionar se estamos errados em pregar a cultura da andorinha que sozinha não faz verão. Por enquanto, prefiro fazer companhia à outras andorinhas!

  • O verbo em sueco do dia é att hjälpa [iélpa], ajudar

7 thoughts on “A andorinha vista do norte

  1. Alexandra says:

    Cheguei até o seu blog procurando sites sobre a Suécia escritos em português. Sou portuguesa e namoro com um sueco há 4 anos, pelo que tento ao máximo informar-me sobre o país e a cultura.
    Em plena crise com o meu Viking, nem imagina como este post foi surpreendentemente esclarecedor para mim, fazendo-me pelo menos ter uma noção do valor que a “independência do individuo” assume na cultura sueca. Quando até ditados populares a enaltessem, é porque é um valor bem entranhado na cultura.
    Como portuguesa, temo não conseguir enfrentar um marido e uma sociedade assim.
    Cumprimentos para si.
    Alexandra – Coimbra/Portugal

  2. Estou na Suécia a apenas 3 meses, e já sinto essa individualidade. Aqui as pessoas são frias demais até para dizer um “Hej” ao encontrar outrem na entrada do condomínio. Essa cultura de que sou independente, não preciso de ninguém, é as vezes um tanto louca. E isso não vai mudar tão cedo, nós brasileiras que aqui vivemos temos que nos adaptar a isso. Sinto falta da alegria estapada no rosto das pessoas, daquele “Bom Dia” caloroso da sua vizinha quando se encontram no elevador… Mas nem tudo na vida são flores.

  3. Elaine says:

    Ei Ju,
    Que bom que não foi só eu que notei. No Brasil dar lugar ao idoso nos transportes públicos está na lei, mas nós sabemos que não é por isso, é uma questão de bom senso. Aqui na Suécia já vi uma senhora idosa cair dentro do metro e realmente se machucar, ai todos ajudaram, talvez pudessem tê-lo feito antes…
    Bom, eu tenho uma pergunta sobre o Komvux e a universidade, se vc puder responder eu agradeco muito: o governo paga alguma coisa para quem faz esses cursos? Eu vi no jornal, na tv, que alguns imigrantes repetiam várias vezes o curso do Komvux para continuar recebendo ajuda financeira do governo, mas eu tenho dúvidas pois não sei se entendi correto. Se vc souber, por favor responda-me.
    Grata. Elaine

  4. Ju, os nordicos sao realmente bem diferentes de nos, mas apesar de parecer ser mais aprecido com o brasileiro, o italiano tb tem seus limites.

    Bjs

  5. Olá Alexandra!! Bem vinda ao Enquanto isso,… !!! Apesar de estar consciente disso ainda me surpreendo com essa independencia exarcerbada. Mas tudo tem seu lado positivo, não? O jeito é tentar, com carinho, explicar que nós somos diferentes, de forma alguma culpadas por maus entendidos, e não eles que são estranhos à nossa cultura!! Ao meu ver, a convivência demanda um eterno jogo de cintura!! Abraços e boa sorte!! 😉

    Oi Danielly, acho, sinceramente, que eles não deveriam mudar. Nem espero por isso. Porque para eles isso não é errado, não tem nada de mal. E talvez esse seja o charme deles! Não sei! Mas aqui em casa, tento ao máximo explicar ao meu viking que determinadas ações suecas me machucam. Tento mostrar a ele o meu lado da moeda. Pelo menos até agora ta funcionando. Quanto ao Bom dia, eu não deixo de dizer mesmo se o vizinho não me responde. Uma sueca, uma das professoras mais adoraveis que tive, costuma dizer que é impossível não ser contagiado por um sorriso diário que recebe de um estranho. Ela diz que quem imigra normalmente fica na defensiva e espera ação do outro. Eu tento fazer minha parte… 😉

    Olá Elaine! Talvez a senhora não quisesse ajuda. Vai saber. As vezes as pessoas não sabem como as outras vão reagir e simplesmente resolvem não agir. 😕

    Sobre o Komvux ou a universidade existe sim uma ajuda financeira. Dois critérios são imprescindíveis: possuir um PUT (visto permanente), ou seja, depois de dois anos (ou mais, dependendo do caso) de residência na Suécia e estar no komvux ou universidade.
    No caso dos asilados, eles têm direito desde que se inscrevem no SFI. Existem muitos que aproveitam do sistema, mas não são a maioria.

    Pois é Meiroca, são essas diferenças que a princípio estranhamos e que depois de um tempo tornam-se mais do que comum e possivelmente parte da tua rotina futuramente. Eu só fico alerta para não ir tão longe neste ponto… 😕

  6. Jeber says:

    Agora é para valer, no dia 28/03/2008 embarco para Estocolmo, estou ansioso para conhecer a Suécia. Ficarei em Estocolmo por 3 meses desenvolvendo parte de minha tese de Doutorado com peixes no museu de História Natural da Suécia (NRM). Agora estou a procura de hostels ou um quarto para alugar, estou surpreso com os preços são bem altos, e como minha bolsa do governo brasileiro é de 1,000 EUR/mês estou preocupado. Procuro por algo perto do NRM ou Universidade de Estocolmo, para que eu possa ir caminhando, mais está difícil de encontrar, pois gostaria de algo na faixa de 550-600 EUR/mes.
    Parabéns pelo site, e se alguém souber de algo por favor deem um toque.

  7. Alexander says:

    Oi Juliana,
    Achei seu blog “sem querer”, ao procurar textos, matérias ou até mesmo livros sobre como enfrentar diferenças culturais. Imagine você que nem me dei ao trabalho ainda de sair do Brasil (coisa que dentro em breve pretendo seriamente fazer, nem que seja para adquirir experiência) mas mesmo assim tenho enfrentado conflitos entre meus valores pessoais, de criação familiar, e os das pessoas no estado onde vivo hoje.

    “Ao meu ver, a convivência demanda um eterno jogo de cintura!!”

    E haja jogo de cintura!

    Gostei bastante dos seus textos e parabenizo-a pela sua iniciativa bondosa de, também, nos ajudar com suas experiências tão especiais, compartilhando do seu bom senso não só com os vikings. :)

Comments are closed.