Violência verbal e corporal: Suécia e Suíça, um debate sobre racismo

Atos de violência são sempre chocantes e inaceitáveis. Tanto a violência verbal quanto a corporal. A verbal dói e atinge a alma, a corporal também dói mas é visivel e por isso chocante.

Acabei de ver no blog de Denise o vídeo de uma brasileira que foi agredida por três homens na Suíça, perdeu as gêmeas que estava esperando e ainda ganhou marcas no corpo feitas com estilete com a sigla do partido de direita que mais cresce no país. Sim, aquele mesmo dos cartazes que pediam por mais segurança.

Como falei anteriormente, a Suécia, apesar de lutar contra discriminação em vários âmbitos da sociedade, não está fora dessa onda que cresce em toda a Europa. Eventos recentes mostram que a intolerância atinge não só o “senhor qualquer um” mas também instâncias que na verdade deveriam combater esse tipo de prática.

Em dezembro de 2008, um conflito se instalou na cidade de Malmö após o proprietário de um galpão ter decidido terminar um contrato de aluguel onde estava localizada uma mesquita. Foi uma bomba. Muitos aproveitaram a situação para incendiar vários carros e estabelecimentos. A cidade virou um caos.

Semana passada, um video realizado pela própria polícia de Malmö revela que policiais fazem comentários racistas sobre os manifestantes, inclusive dizendo entre outras coisas que iriam torná-los estéril. Um escândalo! O comissário responsável “deu queixa de si mesmo” (não sei como dizer isso!) por não ter aberto uma investigação sobre o caso, já que sabia do acontecido.

Dois dias depois, um policial vem a público revelar que durante treinamentos internos da polícia, instrutores utilizam nomes fictícios pejorativos como “Oscar Negro” e “Neger Niggersson”. 

Detalhe: Ao contrario do Brasil, onde a palavra “negro” é sinônimo de respeito, em sueco e também em francês, “neger” é uma palavra carregada de significados negativos. Para se referir aos negros, a palavra correta é svart (noir, em frances), o que para nós brasileiros quer dizer preto, nada aceitavel!

Hoje, podemos ver nos jornais que durante uma investigação de assalto, um policial se refere ao suspeito, em um email interno, como “um neger vestido com uma jaqueta militar verde”. Inaceitável.

Também me questiono se a mídia não tivesse exposto esses acontecimentos, como isso seria encarado. Seria mais um acontecimento cotidiano que provavelmente se repetiria.

Em um editorial assinado no jornal que lemos, a reporter Hanne Kjöller exprime hoje em seu texto o seguinte título e subtítulo: “Olämpligt inte olaglit – Tala gärna – men häng in uniformen” (Inadequadamente, não ilegalmente – Fale a vontade, mas tire o uniforme). Ela diz que é importante saber a diferença do que é inadequado e o que é ilegal se dizer.

O argumento é baseado na tão defendida idéia de liberdade de expressão. O texto foge um pouco do título em questão, mas foi ele que me chamou atenção. E é do título e subtítulo que quero falar.

O que discordo é até que ponto “minha” liberdade não interfere/transgride a liberdade do outro?! É aceitavel que uma pessoa sem uniforme lance ofensas contra outros (mesmo se esse outro não ouviu mas que cujas ofensas foram divulgadas para toda a nação)? Esses atos são apenas repugnaveis se vêm de um órgão público? Isso não deveria ser repugnável vindo de qualquer cidadão?

Dito isso, penso que deixar de reagir a esse tipo de comportamento é uma forma de aceitá-los. E isto nunca deveria ser a posição da polícia.

Como visto, infelizmente a Suécia não está livre da intolerância e da ignorância.

21 thoughts on “Violência verbal e corporal: Suécia e Suíça, um debate sobre racismo

  1. Ju,
    eu vi no jornal essa menina que foi espancada na Suiça… que coisa mais horrível!
    As pessoas hoje em dia parece que estão ficando mais intolerantes, mais agressivas…

    Não precisa nem ir longe.. é só olhar nos jornais brasileiros os trotes das universidades de São Paulo.. vi hoje que uma menina também grávida foi queimada com um tipo de ácido…

    Onde vamos parar?

    Beijos!
    Mercia

  2. Ju,

    otimo post! escrevi um hoje cedo sobre minha indiganação com o caso na suiça, mas não tinha exemplo concreto para dar sobre a suecia. vou escrever um post depois linkando seu exemplo.

    Apesar de concordar com voce e achar o post muito bom, inclusive porque aqui a discussao e meio quietinha, eu creio que a Suecia ainda sirva de exemplo de tolerancia. O preconceito e uma forma terrivel de expressao e ela deve ser castrada sempre! mas talvez seja bom reforçar tambem o que há de etico no comportamento da maior parte dos suecos. Ao menos é a impressão que eu tenho nesse tempo aqui. Inclusive minhas amigas brasileiras, a maior parte negras, dizem que nunca sequer receberam qualquer sinal de preconceito. Isso e apenas empirico, apenas uma opiniao, ainda nao trabalhada sobre o caso… Talvez a nossa troca possa me mostrar mais coisas, como ja me mostrou hoje cedo.

    beijcoas!!!!!

  3. Fernanda (Fer) says:

    Ju Moreira:
    Prazer, vim parar aqui através do blog da Denise (SDE) e conferir seu texto sobre os casos de xenofobia. Excelente post!!!! Meus parabéns, vc expôs o caso com cuidado, fez uma boa análise e, o mais importante, realçou que é necessário sempre não aceitar como normal o acontecido.
    Parabéns novamente

    Abraços,
    Fer

  4. O que é mais irritante destas historias é saber que estes europeus saquearam e destruiram muito das culturas africanas, quando iam a Africa roubar suas riquezas;agora o tiro esta saindo pela culatra, com a quantidade de africanos e arabes(para quem eles vendem armas) em seus territorios a coisa esta copmeçando a inomodar….e vai feder um bocado no futuro bem proximo….

  5. Jack says:

    Isso só me deixa com medo…
    Acho que durante certos momentos da vida, todo mundo já pensou em morar (ou já mora) em um outro país, pelas mais variadas razões. Esse tipo de acontecimento nos faz pensar duas vezes…
    Eu só me pergunto: que autoridade esse tipo de gente acha possuir para se dar o “direito” de ferir os outros impunemente?
    Pra mim isso é tudo uma questão de educação de berço, porque consciência e humanidade se ensina cedo e em casa: da doméstica que lhe presta serviços, e que usualmente é tratada como escrava, ao caseiro/porteiro do seu prédio, ao qual se tem a obrigação de tratar com respeito!, coisas que muita gente não faz, independente de origem e classe social. Nem um “pobre” trata bem outro “pobre”, que se diga dos que tem algum dinheiro…
    A coisa só fica feia e chocante quando ganha as proporções alarmantes da mídia…
    É nos pequenos detalhes que estão as grandes diferenças…
    Quando se fecha os olhos para os pequenos maus tratos do dia-a-dia (pessoais ou alheios) a professores, atendentes, idosos, no trânsito, não se pode reclamar quando o “feio” fica tão grande que não se pode mais esconder das vistas…
    Lamentável!

    Se cuida, Ju!
    Beijão.

  6. Come eu sou sueco morando na Bélgica e conheçendo o Brasil desde 1977, tenho algumas reflexões sobre o comportamento lamentável de certos brasileiros fora do pais:

    Eu fuí casado com uma curitibana aqui na Bélgica durante três anos. Ela pediu divórcio porque eu não deixei ela dirigir carro em Bruxelas sem carteira. Depois ela me acusou de bater em ela e arrumou 2 outros brasileiros como testemunhos falsos.

    Agora o filho dela, que já passou pela a polícia e justíça belga por cause de roubo de celulares usando uma cópia de uma arma, quer vingança. Está pensando em fazer besteira de novo. Como Brasil vão conseguir melhorar a imagem quando passam coisas assim? É realmente muito triste!

  7. Além disso, eu acho este ato de racismo pela polícia que aconteceu na Suécia foi terrível, sem dúvida nenhuma. Infelizmente, racistas é intolerância tem em todos os paises no mundo em vários formas.

  8. paolasartoretto says:

    Mikael, acho que o problema não é o que alguns brasileiros fazem fora do Brasil e sim que as pessoas são craques em generalizar. Não sei se tu sabe, mas a prostituição infantil é um problema bem grande em algumas capitais do Brasil (assim como na Tailândia, país que muitos suecos escolhem como destino para as férias), a clientela é principalmente de europeus: alemães, italianos, suecos. Mas não é porque uns vão para lá para explorar menores, talvez dizendo para as suas esposas que estão em viagem de negócios que eu vou achar que TODOS os alemães, italianos, suecos fazem isso.

    Sinto muito que a tua mulher tenha feito isso contigo, eu não faria isso com meu namorado, conheço muitas brasileiras que também não fariam. E daí, por qual exemplo nós vamos julgar?

  9. Paola, não digo que todos os brasileiros fazem coisas assim, é uma minoria. Mas são pessoas mais do que suficientes parar destruir a imagem do país. Minha história e só uma de muitas que passam aqui na Bélgica, uma mais absurda que a outra e no mesmo patamar que a farsa sobra a advogada na Suiça. Alguns parecem nos jornais envolvendo tráfico de drogas, prostituiçáo, passaportes e nacionalidades falsas, casamento em branco.
    Tem até brasileiros que falam que “não quero me envolver com brasileiros aqui porque só dá problemas”.
    Infelizmente o clima já ficou assim por causa de bagunça e muitos problemas e so aumenta a tendência de racismo e intolerância.
    Agora, o que você fala sobre o mal comportamento dos europeus no Brasil, Tailândia etc…concordo perfeitamente e repito que tem racismo e intolerância em todo lugar. Agora, o problema de certos brasileiros no exterior já chegou num outro patamar e náo é por acaso :(

  10. paolasartoretto says:

    Engraçado Mikael, já faz 7 anos que eu moro fora do Brasil, morei na Inglaterra e agora aqui na Suécia, nunca tive esses problemas que já chegaram noutro patamar como tu fala. Eu escolho bem minhas amizades, não só entre brasileiros mas entre qualquer nacionalidade.

    Generalizar não acontece apenas com Brasileiros, quando eu morei em Londres ouvia coisas cabeludíssimas de poloneses por exemplo. Algumas vindas dos próprios. Eu conheci vários poloneses lá, muitos eram gente finíssima, outros nem tanto.

    Eu insisto em dizer que ser mau-caráter não escolhe nacionalidade e brasileiros não são nem melhores nem piores do que ninguém. E julgar um grupo inteiro por alguns membros, bom, isso é algo que eu – nem ninguém – pode controlar, mas que para mim é ignorância.

  11. Bem, eu conheço o Brasil 32 anos, moro na Bélgica 20. Agora, até na Inglaterra acontecem as mesmas coisas com brasileiros, Um amigo advogado meu, brasileiro que mora na Bélgica, foi para Inglaterra defender um outro que estava fazendo passaportes falsos (portugueses) para os brasilieos clandestínos. A namorada dele foi preso na França quando ía entregar os documentos para os clientes lá
    Agora, eu acho que deve lembrar que a maioria, mas não todas claro, dos brasileiros que entram na Europa são clandestinos, e sáo milhares. Nem por isso, todos eles fazem besteira. Eles trabalham no negro para mandar dinheiro para o Brasil. Mas muitos fazem. Os problemas parecem quando acham que a Europa e como o Brasil em termos de respeitar as leis.

  12. Também quero te parabenizar pelos o analíse ao ponto sobre a xenofobia na Suécia, a diferença entre os esforços e a imagem oficiais do país e o problema do racismo real que se passa dia a dia.

  13. paolasartoretto says:

    Mikael tu sabe o que a palavra “generalizar” significa? Julgar o todo por uma pequena parte. E é isso que tu faz ao dar exemplo do teu amigo ou da tua mulher para explicar o comportamento de toda uma nação de 180 milhões de pessoas.

    Na primeira vez que eu te respondi eu disse que não faço a mesma coisa com os suecos, ou com qualquer nacionalidade. Cada pessoa é diferente e única.

    Onde estão os números que cofirmam que a maioria dos brasileiros no exterior é ilegal? E mesmo que uma grande parte seja, muitos não estão cometendo nenhum crime, como tu mesmo observou. Estão em busca de uma vida melhor, de oportunidades, como muitos europeus fizeram – inclusive na minha família – ao emigrar para o Brasil em vários períodos da história.

  14. Paola, você já leu o que esrevi:

    ‘Paola, não digo que todos os brasileiros fazem coisas assim, é uma minoria”

    E:

    “Agora, eu acho que deve lembrar que a maioria, mas não todas claro, dos brasileiros que entram na Europa são clandestinos, e sáo milhares. Nem por isso, todos eles fazem besteira “;

    O que isso tem a ver com “generalizar” e “para explicar o comportamento de toda uma nação de 180 milhões de pessoas”.

    O que significa as frases que eu escrevi? Depois pensa bem o que você responder….

    Agora para te dar um exemplo concreto dos brasileiros ilegais posso te dizer que toqei bateria numa igreja evangélica brasileira aqui em Bruxelas durante 7 anos. Dos +- 150 membros 5-10 eram legais, incluindo o pastor com a família. Os outros ilegais. Alguns deles vivendo aqui entre 7 e 14 anos sem papeis. Devo emfatizar que os membros variam muito porque vários eram deportados mas outros chegaram, tempo todo assim e continua do mesmo jeito

    Agora, a minha ex-mulher também era ilegal antes de casar comigo e com 2 filhos vivendo sem papeis também, já 8 anos assim (desde 1997). Foi assim que eu começei de descobrir este mundo dos brasileiros clandestinos aqui na Bélgica, e eu te juro, a coisa assusta!!. A coisa de fazer besteira e ter problema com a lei belga, sô quero chorar (mas aindé insisto: a maioria não fazem besteira)

    Além da igréja que eu participei, tem +- 10 outras igréjas brasileiras aqui em Bruxelas. Se você morou em Londres já sabe que a coisa é iguál.

    Segundo a embaixada brasileira aqui em Bruxelas tem cerca de 3 000 brasileiros clandestinos aqui na Bélgica, é é sò uma estimação né. Depois tem alguns centenas de brasileiros com papeis em ordem.

    Vivendo na Suécia eu sei que tudo isso parece novidade quando tudo lá é bem mais controlado. Mas vai para Hamburgo, Bruxelas, Paris, Lisboa, Sevilla, Roma, Madrid é você vai descobrir um outro mundo dos brasileiros clandestinos na Europa

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