Contraceptivos e o implante-placebo

Sempre fui uma garota muito responsável. Aprendi cedo a lidar com dinheiro e nunca tive problemas em me cuidar para evitar filhos e doenças. Minha mãe  procurou sempre me explicar tudo juntamente com as consequencias de atos “impensáveis”. 😀 Ela com certeza fez um bom trabalho. Mas uma reportagem que acabei de ver me deixou um pouco preocupada.

Desde que começei a tomar pílulas anticoncepcionais, há quase 15 anos, já sabia o que eu queria. Evitar filhos cedo e não sofrer os efeitos colaterias desagradáveis que as pílulas nos trazem, um deles seria o sobrepeso. Por este motivo, pedi a minha primeira gineco um método com baixo teor hormonal. Ela me indicou Mercilon, da empresa farmaceutica Organon com o qual me dei superbem. (não estou nem quero fazer propaganda de remédios. só estou relatando minha experiência. vocês vão já já entender o porque de citar o nome da empresa).

Em 2002, dois anos antes de mudar para a Europa, decidi que já estava na hora de não mais receber as visitas mensais femininas, se é que vocês me entendem (não gosto da palavra a qual a explicação se refere! :P). Troquei de contraceptivo e me mantive “fiel” a empresa. Desta vez, com o Cerazette, também tive bons resultados. As visitas foram otimamente interrompidas e não tive nenhum efeito colateral indesejado.

Quatro anos mais tarde, sabiamente optei pelo implante subcutâneo, Implanon, também da Organon, o qual além de evitar as tais visitas, me deixaria três anos protegida (já que não precisaria me preocupar com a hora de tomar a pílula) de uma gravidez indesejada. O implante foi aplicado na França, no braço esquerdo. Não doeu, juro! Ele me trouxe alguns efeitos chatos, como algumas espinhas que nunca tive. A irritabilidade não sei se foi causada pelo implante ou se eu sempre fui facilmente irritavel (com a dããã alheia!). Mas ok.

Caixa e adesivo Evra e Cartão do Implanon

Caixa e adesivo Evra e Cartão do Implanon

Há quatro dias, um mês antes de completar três anos, fui a gineco que prontamente o retirou. Queria colocar outro, mas ela me pediu para esperar um mês. Assim veríamos como minha pele reage. Durante este mês, para não ficar desprotegida ela me sugeriu o adesivo Evra, da empresa Janssen-Cilag. Titubeei um pouco, já que em todos esses anos  havia me dado bem com os métodos da Organon. Mas como não resisto a desafios e coisas novas, encarei numa boa. Estou achando divertido, só coça um pouco, mas deve ser normal!

A Reportagem

Existe um programa na TV sueca que se chama Uppdrag Granskning (Missão investigação!) o qual investiga denúncias e as exibe em horário nobre. Uma das mais marcantes dos últimos tempos foi a da carne moída que era reembalada após ter passado da validade e posta nas prateleiras para serem revendidas com outras datas. 

Hoje, procurando matérias para publicar no Brassar me deparo com o seguinte título no jornal Metro de uma semana atras: Hon blev gravid – trots sin p-stav (Ela engravidou apesar do implante). Corri para ler o artigo que falava do programa, que seria exibido dia 15, e em seguida para o site do mesmo.

A história é bizarra. Uma garota de 16 anos, com o sonho de se tornar veterinária, antes de começar os estudos do ginásio decidiu utilizar o implante por ser um método contraceptivo seguro. O problema foi quando, alguns meses depois ela sentiu os chutes na barriga com 19 semanas e meia de gestação. Até ai, “tudo bem”, já que ela poderia ser uma das poucas mulheres que engravidam usando anticoncepcionais (a margem de mulheres grávidas usando o implante é ínfima).

O problema foi que na retirada do implante descobriu-se que foi implantado um placebo! Ou seja, sem nenhum efeito contraceptivo. E agora? De quem é a culpa? Do médico que não verificou que o implante era azul (em vez de branco – com a substância), da farmácia que vendeu o produto ou da empresa que fabricou o implante?

Bom, se você inocente leitor não sabe a resposta, não se espante pois as autoridades suecas também não sabem. Várias investigações foram abertas por diferentes órgãos, inclusive por seguradoras que deveriam pagar indenizações, e chegou-se a conclusão de que ninguém tem culpa! Essa história está rolando a quase três anos!

O casal resolveu não abortar e uma linda criança nasceu saudável. Mas a questão continua. De quem é a culpa? A reportagem insiste que a Suécia não está sabendo tratar este caso como “erro” médico, no qual todo e qualquer paciente recebe indenização, já que a criança não é vista como “efeito colateral”.

 

Uppdrag Granskning - En spark i mage (reprodução de TV)

Uppdrag Granskning - En spark i mage (reprodução de TV)

 

Enquanto isso, o jovem casal luta pelos seus direitos sem saber se algum dia haverá reparo por algo que tentaram evitar e que acabou custando a carreira e planos futuros de ambos. :(

Uma lástima!

PS. O programa pode ser visto aqui até dia 28 de julho.

Reblog this post [with Zemanta]

10 thoughts on “Contraceptivos e o implante-placebo

  1. Ana says:

    Oi Ju, achei super interessante a matéria :) Mas que os suecos ainda não decidiram a responsabilidade é quase rídiculo! No Brasil a responsabilidade seria de todos: a farmácia (pessoa jurídica) responde objetivamente (independentemente de culpa) e o fabricante, bem como o médico que fez o implante, solidariamente (dividem a responsabilidade com o farmácia). O código do consumidor brasileiro é categórico sobre a responsabilidade por defeito no produto. A questão é de alta indagacão mesmo e exige muita interpretacão legal… mas será que aqui não tem direito do consumidor? :S

    • jumoreira says:

      Pois é amore…ridiculo mesmo. Eu acredito que os suecos não pensem como consumidores. Digo, consumindo o produto “saúde”. Essa versão mercantilizada da saúde é longe da realidade deles. Saúde é vista como direito do cidadão e não do consumidor, por isso recorrem a órgãos públicos responsáveis por avaliar os serviços. Diferente do Brasil onde temos que ficar atentos para não sermos ludibriados pelos planos de saúde.

      Apesar de acreditar, como os suecos, que a saúde é mais um direito do cidadão do que de consumidor, acho que o Brasil ainda sai na vantagem em “proteger” o cidadão em casos semelhantes (vide as pílulas de farinha!) 😉

      Xero [b]Aninha[/b]

  2. Juliana,

    Ao ler seu post nao pude evitar fazer um comentário. Tres meses depois do nascimento da minha filha em 2003, coloquei o Implanon por sugestao do meu medico, ja que eu sofria muito com colicas etc. Nao me adaptei, comecei a ter reacoes como sangramentos, irritacao etc. Entrei em contato com meu medico para relatar estes acontecimentos e ele disse que era normal, pois estava me adaptando. Seis meses depois de tentativas de adaptcao e com consequencias como perda de peso, anemia etc retirei o Implanon e claro mudei de medico. Ainda hoje, acho que tenho resquicios desta experiencia, como por exemplo tenho que tomar ferro sempre. Enfim, hj estou bem, mas quando vejo qualquer referencia ao Implanon me sinto incomodada.

    Beijos

    Sandra

    O último post de Sandra foi Cozinhando em Portugal.

    • jumoreira says:

      Oi Sandra! Obrigada por ter comentado no blog. É sempre bom saber outros pontos de vista sobre o assunto. :)

      Quando comecei a pesquisar sobre o Implanon encontrei alguns depoimentos como os teus. Muito chato isso. Mas ao conversar com minha médica no Brasil, ainda em 2002, ela me disse que o ideal seria primeiramente fazer um teste com o Cerazette para depois, se adaptada, partir para o implanon.

      Em 2002, o implante ainda era muito caro, principalmente no Brasil. Não pensei duas vezes em testar com o Cerazette. Se caso não me adaptasse, sem dúvida eu não colocaria o implante. Mas cada organismo reage de forma diferente. Infelizmente (falo pela praticidade) o teu não se adaptou. :(

      Bjos

  3. Fernanda (Fer) says:

    Ju Moreira, tudo bem?

    Achei muito interessante essa questão que você colocou. Sob meu ponto-de-vista a responsabilidade recai na indústria (que não separou o placebo do medicamento real) e do médico que não conferiu (já que havia essa questão da cor como vc mencionou). A farmácia apenas vendeu o produto, podendo também ter sido ludibriada, pois deve ter comprado um lote fechado e tal e esse placebo foi junto no lote.

    Quanto ao Implanon, tenho medo também. Tenho medo ao interferir nos hormônios, pois eu sou proibida de tomar pílula por causa de casos de cânceres diversos na família, então já sou propensa a tal. A própria ginecologista me disse que é perigoso. Caso eu precise tomar, devo tomar apenas 3 meses e fazer uma interrupção de uns 3 meses e assim vai. Jamais poderia usar um implante desses que vai liberando aos poucos uma carga de hormônios. Cada caso é um caso. E, como todo anticoncepcional, eles ainda estão permanentemente em testes…mulher sofre!!!

    Belo post, Ju.
    Bjs
    Fer

  4. Karina says:

    Eh bem sueco mesmo, eles nao saberem exatamente de quem eh a culpa. O que eu acho muito bom. Logo mais eles acham uma resposta para o problema. A Suécia tem sim o direito do consumidor, aliás o que nao falta na Suécia eh lei.
    Porém eles gostam de avaliar e reavaliarem todas as situacões nos mínimos detalhes.

    • jumoreira says:

      Olá Karina!! Tendo a descordar de ti no que se refere a achar bom essa história de os suecos nunca saberem de quem é a culpa. Muito pelo contrário, não consigo ver nada positivo em não assumir a culpa por erros cometidos.

      Também não acredito que logo eles acham uma resposta para o problema. Isso só faz com que os problemas sejam empurrados com a barriga. Acho muito infantil não assumir a culpa por erros, mas como vc disse é uma atitude bem sueca. E nisso concordamos ;).

      Aqui existe sim direito do consumidor. O órgão responsável é o Konsumentverket. Mas como disse, não acredito que os suecos vejam a saúde como um produto.

      Abraços!!

  5. Ju te achei!

    Olha lendo seu post eu com certeza ficaria louca se fosse essa menina…Coitada!
    Acho que os médicos tem que ter uma responsabilidade nisso tudo, pois se vamos até eles e pq no mínimo são pessoas capacitadas para isso.

    Vou linkar seu novo blog, aliás tá lindo 😉
    Bjokas

    O último post de Vivi foi Project 365 days…The End!.

  6. Ai mana, esse era meu pior pesadelo…. que acabou virando realidade! O mais importante a meu ver é a pessoa saber lidar com esse problema, afinal, quem menos tem culpa nessa historia é o que terá de lidar com as consequencias mais duras

    O último post de Ciça foi Os jardins perfumados da Maiso Rose.

  7. mulata says:

    ola, tenho 20 anos.vivo em portugal e também aconteceu algo parecido comigo, mas nao fiquei gravida! estava a tomar uma pilula que ja tinha expirido o prazo dez. de 2008, mas eu sou seguida por um centro de saude de jovens e adolescentes e foi a enfermeira que administrou a pilula.Comecei a sentir muito mal após ter tomado a pilula nauseas, enjoos, diarreia….perdi peso claro que não sentia grande vontade de comer pk ficava sempre enjoada.até hoje tenho hemorragia e dores no utero.estou a fzer varios exames pork não sabem se isso foi mesmo da pilula, mas eu acredito que sim pk eu nc tive isso…ja tomo a pilula há 5 anos nc tive uma hemorragia de 30 dias…E eu sei que nao adianta faxer nada pk so vou perder o meu tempo.. eu sei k tive culpa em não ter olhado para o prazo de validade, mas tbm nc passou pela minha cabeça que iam me dar uma pilula que ja expirou de validade.E quem viu isso foi uma amiga….

Comments are closed.