“Despertencimento” ?

Comecei a pensar nesse post ainda no trem de volta para casa. Pena que muita coisa se perdeu na minha mente. Mas o que queria dizer é que  a sensação de não fazer parte de um grupo está me incomodando imensamente . Não falo especificamente um grupo de trabalho, mas da turma com a qual estou estudando. E essa sensação é muito chata.

A sensação de não pertencer a algo, ou não ser/estar incluida em, é muito estranha. Acreditem, não é uma relação passiva. Eu me esforço. Mas bom, esforçar não é bem a palavra que eu gostaria de descrever meu comportamento. Esforçar para mim significa fazer força para conseguir algo. Eu não estou fazendo força, estou sendo eu mesma. E talvez seja esse o meu erro. :( Não sei, mas na minha cabeça tudo anda muito confuso.

Só sei que estou cansada. E triste. Poderia elencar as coisas que me fazem ficar desta forma, mas soaria muito mais como “tadinha, pobrezinha, não tem amigos na escola”. Nunca gostei dessa posição.

Uma coisa é que percebi que cada vez que vou para a faculdade e volto ouvindo músicas queridas tenho mais saudades dos meus amigos (e os olhos enchem de lágrimas). Talvez seja também pelo fato de eu não estar enturmada (o que não exclui a saudade dos amigos quando ouço as músicas!). Mas essa relação de não ter com quem dividir o conhecimento, tirar dúvidas e mesmo discutir me faz pensar em como sinto falta de ser acolhida pelos meus queridos.

A vontade que dá é a de pegar o primeiro avião rumo à Recife só para poder se sentir querida em um grupo que sei que não vai me “julgar” pela minha origem, questionar meu saber por causa dela ou ser vista como uma pessoa que não domina o idioma que o restante está acostumado a ouvir.

Um exemplo da questão do idioma é o caso de um dos nossos professores, que é francês. Ele mora aqui há 10 anos e ainda precisa parar para refletir alguns segundos antes de dar alguma informação mais profunda. Ouvi comentários de algumas figuras da minha sala dizendo que é muito dificil (senão horrivel) assistir uma aula dele pois fala errado e tem um sotaque muito forte. Além disso, ainda ficaram fazendo gracinhas de alguma palavra que ele pronuncia diferente ou que fala errado.

Isso pode parecer bobeira, mas o fato de eu ter outra língua materna que o sueco, falar com sotaque, precisar refletir antes de falar (para que tudo saia correto aos meus ouvidos) e mesmo depois de todo esses esforço ainda falar errado, a crítica ao professor mexeu comigo. Até porque, gosto dele. :)

Tento não me importar, mas é difícil deixar esse sentimento passar desapercebido. Fico e estou triste, é fato.

Mas…dia 19 começaremos um primeiro grande trabalho em grupo. Se eu não em engano, será um projeto onde iremos criar um perfil gráfico para alguma empresa/produto/cliente fictíci@. Será uma oportunidade de ou tirar essa má impressão criada/causada nesses quase dois primeiros meses de aula ou de confirmar tudo. Vamos ver no que dá.

  • A palavra em sueco do dia é utanförskap, [utanfórshkóp], “despertencimento”, não pertencer a algo
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14 thoughts on ““Despertencimento” ?

  1. Ju, fica assim não, mas realmente é complicado isso que vc falou.
    Ainda mais pra nós brasileiros que estamos sempre em algum grupo, sempre pertencemos a algum e isso ajuda na nossa identificação.
    Vamos vers e com esse novo trabalho a coisa se esclarece e daí vc tira a prova dos 9.
    Bjokas e descanse no findi :)
    .-= Vivi´s last blog ..Chegou direto da terrinha, ora pois! =-.

    • Juliana Moreira says:

      Vivi amore, obrigada pelas palavras. Vamos esperar o trabalho para ver no q da. :)
      xero grande

  2. Nao estàs sozinha em mais essa dificuldade de ser imigrante. Também nao me sinto “parte”, por mais que seja convidada pra uma festinha aqui e um café alì. Nao é a mesma coisa, e talvez nunca seja “a mesma coisa”, mas pode vir a ser uma coisa boa e diferente.
    Sobre o professor, eu faço uma matéria em ingles com um professor sueco e os suecos também falam do sotaque dele e que ele nao domina o ingles. Falam mal de um conterraneo.
    Minha conclusao é que, falando a grosso modo, os suecos gostam de julgamentos. Em uma sociedade onde se cobra tanto a perfeiçao e em tanto aspectos, eles julgam e sao julgados.
    Cabe a nòs nao levar pelolado pessoal e nao deixar que eles nos convençam de que somos diferentes (leia-se) inferiores por nao termos nascido aqui.
    Beijos, boa sorte com os estudos e bom final de semana!
    .-= Mariel Stupp´s last blog ..Apresentando… eu – Com direito a Play e Pause =-.

    • Juliana Moreira says:

      Oi Mariel! Confesso que não me sinto como um “peixe fora d’agua ou não fazendo parte” quando me relaciono com suecos. Me sinto inclusive bem integrada por aqui. Acho q nesse caso existem vários fatores que podem ser levados em consideração, citando apenas alguns exemplos: qual o curso q se faz, idade dos alunos, experiência etc.
      Eu não quis citar o que já aconteceu para não soar que estou levando para o lado pessoal, mas te digo q tentei de varias e diferentes formas de aproximação que não levaram a nada.
      Uma coisa concordo contigo: não se deixar abater nem se sentir inferior. :) Com certeza é uma atitude louvável. Apesar de que todos têm seus dias de baixo astral que ajudam a fortalecer esse tipo de comportamento. :(
      xero e bom final de semana p vc tb. 😉

  3. Dany says:

    Hej Ju!
    Menina fiquei surpresa com sua postagem pois estou estudando på Södertörns högskola tb, mas comigo é bem diferente. Fiz boas amigas na minha sala e olhe que a maioria é sueca. Será que não é vc que está se excluindo sem perceber? Qdo falo que sou brasileira , todas querem saber sobre tudo, carnaval, futebol, clima, nossas belezas…… Já formei por lá tb mais um clube da luluzinha, assim como tenho no komvux. Nos encontramos um vez por mês apenas p bate papo. Funciona até hje ….Sobre o idioma , devo comenter muitos mais erros que vc ,pois moro aqui a 2 anos ,mas elas nem ligam. Acho que isso q estás passando é muito pela maneira como vc se aproxima , vc não acha??? Espero que tdo melhore p vc , depois desse trabalho. xerinho… mas me responda qdo é que vms nos encontrar na faculdade??? vc nem respondeu meu post anterior… eu é q fiquei triste com vc. kkkkkk

    • Juliana Moreira says:

      Oi Dany! Desculpa se não respondi tua mensagem. A correria do BrasilCine me fez praticamente “esquecer” do blog e de responder aos comentários. Bom. Estarei amanha na uni o dia inteiro. Se vc topar, podemos nos encontrar 15h30 (tenho aula ate as 16h mas as vezes os professores liberam mais cedo) na recepção. Me manda teu telefone q te envio uma msg qdo tiver terminado a aula.

      Quando ao teu comentário, é mais ou menos o que escrevi para Mariel. O comportamento das pessoas dependem de vários fatores. Cursos de comunicação/design, por incrível que pareça, é repleto de pessoas com ego inflado que pensam que sabem mais do que os outros. Claro q existem pessoas legais, mas acredite, são excessões.

      Neste caso, ainda tem o fator idade que infuencia. Muitos acabaram de sair do ginásio e a unica coisa que pensam é ir para o bar e beber (com desculpa de comemorar).

      Não estou me excluindo sem perceber. Tenho consciência que tenho tentado me relacionar com as pessoas, mas o fato é que elas ignoram. Algumas até falam e respondem (o que é raro), outras viram a cara quando você fala com elas, outras desviam até o olhar quando esses se cruzam.

      O bom é que não é a primeira vez q estudo com suecos, o que ajuda a não generalizar dizendo q suecos sao isso ou aquilo quando o fato é que o comportamento é consequência do meio em que se está. Estudei em Sundsvall apenas com suecos e foi ótimo. Fiz, inclusive uma amiga queridíssima que por sorte mora em Estocolmo. Ainda tenho contato com o pessoal com quem estudei. Na SU, também fiz contatos legais, mas como em Estocolmo as pessoas tem muito mais dificuldade em se relacionar, bom, não mantemos contato. Mas fui sempre muito bem tratada por todos.

      Amigos do Komvux mantenho contato com quase todos e inclusive nos encontramos de tempos em tempos. Mas neste caso, todos, independente da nacionalidade, se encontram mais ou menos na mesma situação o que faz esse laço de coleguismo/amizade se tornar mais forte e a convivência ser ponto pacífico.

      Bom, agora é esperar mesmo para ver o q vai acontecer depois do primeiro grande trabalho em grupo. :) xero

  4. Ju, muita paciência pra você, viu? Deve ser bem difícil, né? Como pisar em ovos no galinheiro alheio… :S

    Acho lindo nossa (dos brasileiros) forma de acolher, de acomodar. Uma coisa dessa (do seu professor e até a sua mesmo) nunca iam acontecer aqui. Embora o contexto histórico que fez com que ficássemos acolhedores assim não foi uma coisa nem um pouco boa nem mesmo bonitinha!

    Xêro e força pra você!!
    .-= Iury´s last blog ..A ideia do futuro anda me tirando da vida =-.

  5. Aninha says:

    Ju, acho que você tá enfrentando mais um de tantos desafios que já enfrentou por essa vida a fora. E, como sempre, tô vendo que você tá sabendo levar, tentando contornar a situação. Quando morei na España, não tive grandes problemas com o pessoal da minha turma, apesar de ser a única brasileira também. Como tinha gente de toda américa latina, nós nos acolhíamos e, sendo a maioria, éramos nós quem “comandávamos” a situação. E eu “hablando español” pra todo lado. Claro que não é difícil como sueco, mas tu sabe como sou exigente comigo mesma, né? No começo passava muito tempo calada, observando como se falava, as expressões idiomáticas e os sotaques. Quando peguei o jeito, desandei a falar e hoje falo español sem sotaque de brasileira! Todos os estrangeiros que me conhecem e não sabem que sou daqui, me perguntam de que país sou. A maioria pensa que sou mexicana. kkkkkkk… Entretanto, logo que cheguei, tive que lidar com espanhóis pra alugar apartamento pra mim. Aí, amiga, tinha acabado de chegar e falava pouco. Nesse tempo eu sofri, porque com eu não tinha o ritmo, a pronúncia, essas coisas, eles não me entendiam muito bem e não tinham muita paciência comigo, principalmente pelo telefone. Na universidade, tive que ir milhões de vezes lá num departamento resolver uma bronca de uma amiga minha que tava transferindo a faculdade de Valência pra lá. Putz!!! O povo numa má vontade do kct, me dando altos foras. Mas finalmente consegui. No final da minha temporada por lá, já tava dando fora em español e usando da mesma “sutileza” deles pra tratar o povo. kkkkk… Foi o melhor ano da minha vida, como tu já sabe. Bom, Juju. Isso tudo foi só pra te dizer que tenho certeza que você se irrita, fica triste, magoada, mas que no final das contas não perde essa capacidade sua que tanto admiro que é a perseverança. Tu é f*** Jujubinha. Ainda vai botar esse povo todo no bolso. Xêro, amiga. Saudade enorme de tu e vontade de te botar no colinho quando leio teus posts ou falo contigo e vejo que tu tá tristinha. Mas agora quando tu vier a gente se vê. E ano que vem, se Deus quiser, vou poder te visitar! Beeeeeeeeeeeeeijos!

  6. Juliana, entendo bem o que vc quer dizer. e sente. Eu sinto o mesmo. E choro.MUITO. Tem dias em que seguro as lágrimas. Outros, nem tanto. Voltei a estudar com os antigos colegas por que o ENTROSAR QUE VC FALA É IMPORTANTE, SIM!
    Tem dias, sabe, que NAO LARGO TUDO POR QUE, QUANDO ME VEM Á MENTE, A VIOLÊNCIA QUE VIVEMOS NO BRASIL, enxugo as lágrimas e caio na real.
    Já ouvi as mesmas coisas de uma sueca. esta manha, estávamos discutindo sobre o Prêmio Nobel. A professora pediu que escrevêssemos um texto sobre o fato do Obama ser o Nobel da PAz. E eu fiz um texto com introducao, desenvolvimento e conclusao, mostrando do porquë de eu discordar. No meio da apresentacao, uma sueca, professora assistente, disse:

    POR QUË VC NAO ENVIA UMA CARTA AO COMITÊ NA NORUEGA?
    Juliana, ela disse com ar de deboche. Nao prestou nao, viu? Eu esperei ela terminar e disse: DESDE QUANDO EU TENHO QUE CONCORDAR COM O QUE VC ACHA, PARA FICAR BEM NA FITA? VC NUNCA VISITOU UM PAI9S EM GUERRA. NUNCA SAIU DA SUÉCIA, E ESTÁ ACOSTUMADA A GALOFLAR DE IMIGRANTES.
    Mas saiba que, no meu pais de origem, eu cursei duas faculdades.e se você quiser discutir em inglês, vamos discutir. por que, para quem estudou nao mais que 4 meses, meu texto nao tem erros. Mas o sotaque, eu nao abro mao.

    e vc quer saber de uma coisa???Eu pago impostos tanto quanto você. Nao sou refugiada, nao. mas mesmo que fosse, vc precisa respeitar.E, SEU IDIOMA, NAO SERVE ALÉM DA ESCANDINÁVIA.

    depois disso, a professora falou:

    Gente, vamos acabar com isso…A professora veio do tal VUC.

  7. Eu repeti: ela pode ter vindo do inferno.Eu nao tenho obrigacao alguma de aceitar os deboches dela. Ela galhofar de tudo quanto é imigrante, professor
    e strangeiro, por causa de quê Juliana?

    Esse pais, faz muito tempo eud escobri, é uma farsa no tocante a muti gente dizer que é perfeitinho..
    nao é.

    Eu tenho uma relacao boa com suecos. Meus melhores clietnes sao suecos. Mas, semana passada, tive uam rusga com um fotógrafo sueco.participamos de um grupo de fotografia e eu nuca tinha dado de cara com elee. ele saiu a fazer comentários sarcásticos de tudo quanto era fotografo estrangeiro. E eu mirando ele. (ele vive ai em Estocolmo)…
    Quando chegou no meu trabalho, ele nao viu defeitos mas tentou achar…VEIO FALAR QUE os frames nao realcavam as fotos. e eu disse, calmamente:

    OLHA, ESSA QUESTAO DE REALCE, MOLDURA, É MUITO PARTICULAR.E VC NAO TEM GABARITO APRA FAZER ESSA ANALISE, POR QUE VC FAZ FOTOS DA NATUREZA. E NESSE CASO, VC MESMO PODE DEFINIR. Mas, quando o assunto é o cliente, vc opina, mas nao pdoe dizer:

    ACEITE ESSE…

    Pronto…Ele irou-se e disse a uma americana: OLHA, VC FALA QUE ISSO AI É SUNSET..MAS NAO É…É MOON…

    Ela, coitada, nao sabia o que dizer, eu intervi:

    OH, TOMMY, COMO VC SABE DIZER COM 100% DE CERTEZA SE É MOON OU SOL, MENINO?Isso vai depender da estacao, da hora que foi feita a foto…que coisa mais sem graca o que vc faz …Vc tem um recalque com estrangeiro?

    kkk

    bjs e dias felizes

  8. Jujuuu,

    eu entendo voce perfeitamente. E tantas vezes me vi na mesma situacao. A unica coisa que eu fiquei refletindo foi se o despertencimento tem a ver mais com o fato de voce ser brasileira e eles suecos do que o fato de voces estarem em fases tao diferentes da vida…

    voce e adulta, cabeca feita, viajada, conhece o mundo e reflete sobre ele… esta numa turma mais jovem e com gente ainda meio besta que precisa aprender muito.. se aprender….

    pensei nisso porque lembrei de mim mesma tambem quando eu fiz o papel dos seus colegas. Lembro de ja ser maior adulta e na unicamp eu e minhas amigas do primeiro ano morrermos de rir de um professor porque o sotaque dele era muito forrrte. A gente jurava que ele era grrringo, mas descobrimos que era de Pirracicaba, interior paulista. E a gente ria na cara dele. Entende? eu nao era totalmente idiota, mas eu conseguia ser na companhia de minhas colegas, que por suas vez tambem nao eram so idiotas sozinhas.

    A gente faz banca o idiota quando e mais novo e acha que ta abafando… nao to justificando os caras! por favor, nao me entenda assim… to dizendo que entendo que nao pertencer na suecia seja muito mais complicada do que nao se sentir eprtencendo a um grupo no brasil, mas acho que acontece em qualquer lugar mesmo…

    tambem lembro de mim me excluindo por opcao de grupos que eu considerava nao me acrescentarem em nada… ficava sozinha, mas preferia a estar com a turma… nao era bom nao… mas nao dava pra ser muito diferente, porque eu preferia estar sozinha a estar mal acompanhada….

    eu ainda acho que talvez aconteca de voces se enturmarem.. .torco por isso…

    preciso ir, angelo puxando minha mao….beijos e boa noite

    • Juliana Moreira says:

      Deus meu! Nao poderia deixar de responder teu comentário! :) Amore, depois do que tu escreveu andei pensando bastante e essa história de fases diferentes na vida ficou martelando na minha cabeça. E me ajudou bastante. Juro.

      Entendo teus argumentos, mas de qq forma esse tipo de comportamento é uma coisa q chateia.

      Comecei o trabalho em grupo e as meninas sao bem simpáticas. Conversamos bastante. Vamos ver como fica depois disso. Não quero esperar muito p nao me decepcionar (como a história da “minha primeira coleguinha” dessa faculdade – contei aqui isso?). Bom…adorei teu comentário . 😀
      xeroca

  9. Querida,
    Respire fundo e seja forte. Lembre-se que preconceito é uma das piores coisas da humanidade. Na verdade, não se abrir para o mundo, não conhecer o outro e nem trocar idéias com pessoas diferentes é muito triste.
    Se quiser pegar um avião para São Paulo também pode!

    • Juliana Moreira says:

      Ai Ma, juro que sempre penso nisso. 😀 Obrigadinha pela força. E obrigadinha também pelo “acolhimento” em SP. Sempre fui muito bem recebida por todos os meus amigos paulistas. 😀
      xero grande de saudades

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