Em menos de três meses passei pela mesma situação duas vezes. Perdi duas pessoas que amo. Uma barra. A primeira, quatro dias após nossa chegada ao Brasil, em dezembro de 2009. Neste caso, meu avô materno. Meu querido “véio”. A dor da morte do meu avô foi aliviada pelo fato de que nós dois só nos víamos nas nossas viagens ao Brasil. Ele já não lembrava de ninguém há anos, mas a cada visita que eu fazia, riamos as turras.
A segunda pessoa foi apenas há seis dias. Na quarta-feira, 17 de março, minha sogra, mamma, como eu carinhosamente a chamava, partiu para uma longa viagem e deixou um lugar vazio nos corações de todos que a cercava. No meu não foi diferente.

Mamma dormindo no jardim num dia ensolarado de verão em Kopparberg
Ela foi uma pessoa muito especial na minha vida. Sempre me tratou carinhosamente o que fez nossa relação se aprofundar a cada conversa sobre família, cultura, tradições e modo de vida. Foi com ela que aprendi a fazer pão, a plantar, a apreciar estar na natureza, a colher cogumelos na floresta, a dançar a musiquinha do sapo no midsommar além de tricotar e a entender como a família viking funciona.
Kopparberg, onde ela tem sua casa de campo, será um dos lugares mais difíceis de voltar sem ela. Já que lá era o “nosso cantinho”, onde eu consigo dormir profundamente durante uma noite inteira, onde aprendi tanta coisa, onde vivi tantos momentos especiais e onde aprofundávamos nossa relação constantemente, tantas lembranças. Agora, apenas lembranças….

Foto: Guenter M. Kirchweger (Stock.Xchng)
Fico feliz por ela ter conhecido minha mãe e dois dos meus primos. Ela sempre falava deles e pedia para mandar lembranças. Uma pessoa difícil de não gostar, tão meiga que era.
O curioso é que seu interesse pelo Brasil estava muito aflorado nos últimos tempos. Ela assistia a todo e qualquer documentário sobre o país, gostou de ler Jorge Amado, ficou super feliz quando ganhou refis do óleo trifásico de maracujá da Natura, amou o mel que trouxemos para ela, ficou encantada com a música de Marcos Souza durante o encerramento do BrasilCine 2009, queria ganhar de presente uma semente de cacau e chorou de alegria ao ver nossas fotos no Brasil e perceber o brilho de felicidade nos olhos do meu viking.
Nunca mais esqueço quando a mesma me falou que fui a melhor coisa que aconteceu na vida do meu viking. Ela realmente gostava muito de mim e deixava isso transparecer em cada abraço apertado que ganhei ao chegar e ao partir.
Como disse, nossa relação era muito profunda, íntima e especial e a passagem de mamma para um outro plano me abateu mais do que eu imaginava. Meu viking está aparentemente bem. Eu não posso dizer o mesmo, apesar de estar tentando. Uma tristeza profunda, crises de choro repentinas e falta de concentração. Talvez minha hipersensibilidade reforça ainda mais minha alma melancólica, fazendo com que sentimentos sejam potencializados.

Amo essa foto. Ela foi tirada em 2005 em uma das minhas visitas à Suécia. Um lugar lindo que ela gostava bastante - Bergianska Trädgården..
Quando tudo aconteceu, estávamos quase todos no quarto do hospital. Ela já não nos respondia nada desde o dia anterior, mas sentíamos sua respiração mudar quando conversávamos com ela. Às 19h50 do dia 17, sua respiração parou de vez após eu dizer baixinho em seu ouvido quem estava presente no quarto, como ela era amada por todos que alí estavam e que a mesma estava rodeada de muito amor. Dei um xero em sua cabeça, senti seu pulso parar, sua respiração cessar.
Após comunicar a alguns familiares, eu fiquei em estado de choque. Nunca me vi desta forma. Chorei copiosamente durante uma hora sem conseguir respirar direito. Uma imensa dor no peito me abateu, abracei meu viking e liguei para minha mãe. Me acalmei. Mas os dias seguintes foram (e estão sendo) muito difíceis. Agora é preparar o velório e o enterro*.
Sei que em ambos os casos, foi o melhor para eles. Estavam sofrendo bastante. Tenho plena consciência de que não sou preparada para perder (ou me separar delas) pessoas, em todos os sentidos.
Queria escrever muito mais, mas…
tá difícil.
*esses dois pontos bastante especiais na Suécia posso comentar depois.
- A palavra em sueco do dia é sorg [sórie], luto